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Lula, Flávio Dino e Talíria Petrone | Foto: Shutterstock/Wikimedia Commons/Ricardo Stuckert
Edição 287

Na contramão da segurança

Parlamentares governistas dedicam-se a projetos que podem enfraquecer o combate ao crime organizado

O dia seguinte ao 7 de Setembro não foi duro para a esquerda apenas pelo impacto das manifestações da véspera em favor da anistia. Logo na manhã da segunda-feira, 8, uma operação das polícias militar e civil na Favela do Moinho, região central da cidade de São Paulo, prendeu diversos suspeitos por envolvimento com o tráfico de drogas. Na relação de pessoas levadas pelas autoridades estavam duas mulheres: Alessandra e Yasmin Moja, mãe e filha, respectivamente. Pouco mais de um mês antes, a dupla vivia uma realidade bem diferente: em vez de algemas, o palanque — e muitos aplausos na companhia do presidente da República.

Lula da Silva esteve na favela para participar do anúncio de um projeto habitacional direcionado a 900 famílias que vivem irregularmente na região. Durante o discurso, animadamente e ao lado de Janja da Silva, o petista recebeu e cumprimentou Alessandra e Yasmin. Alvo principal da operação, Alessandra, que se apresentava como líder comunitária, é irmã do traficante Leonardo Moja, o Leo do Moinho. Ele chefiava o tráfico no local e foi preso no ano passado. Segundo as investigações, a comunidade era o ponto central de armazenagem e distribuição de drogas a usuários na Cracolândia e em outras áreas da capital. 

Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante assinatura de atos relativos à solução habitacional para a Favela do Moinho (26/6/2025) | Foto: Cláudio Kbene/PR

O episódio acima é só mais um capítulo na longa história de estranhos encontros com companheiros às voltas com a Justiça. Na disputa pela Presidência da República em 2022, a esquerda foi acusada várias vezes de nutrir relacionamentos com figuras supostamente ligadas ao crime. Em 18 de outubro daquele ano, em busca de votos no Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio de Janeiro, Lula colocou na cabeça um boné com as letras CPX. Para os opositores, o gesto foi um aceno explícito do petista às facções criminosas. Segundo consta em decisões judiciais, a sigla se refere a um comparsa, um sujeito que tem amizade com a bandidagem.

Dino no Complexo da Maré

A velha mídia apressou-se em classificar a leitura como fake news. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) completou o serviço e exigiu a remoção de mensagens nas redes sociais que associavam Lula a pessoas encrencadas com a lei. O argumento era de que CPX se resumia a uma abreviatura da palavra ‘complexo’, como são chamados os agrupamentos de favelas na capital fluminense. O empenho para eliminar qualquer vestígio de proximidade entre Lula e o crime organizado foi tão grande que até o zelo à grafia, algo incomum na liturgia lulopetista, foi adotado de maneira enérgica. Não faltou gente tentando ensinar língua portuguesa sob o recorte de que cupincha é com ‘ch’, e não com ‘x’. Logo, o CPX na cabeça de Lula não fazia sentido como um código da malandragem.

Apesar do incômodo inicial, a polêmica se tornou chave para a esquerda. Com o empurrão da velha mídia e a vista grossa do TSE, Lula e seus aliados aproveitaram o caso para jogar o eleitorado contra o rival Jair Bolsonaro (PL). Militantes de várias patentes — de Xuxa Meneghel a Chico Buarque — começaram a desfilar com o boné CPX, em claro manifesto de apoio a Lula. Um ativista se encarregou de visitar e presentear celebridades, entre elas, o piloto britânico de Fórmula 1 Lewis Hamilton. Até o então apresentador do Jornal Nacional da Rede Globo, William Bonner, aderiu à propaganda. Com a hashtag #FaveladoNãoÉBandido, a esquerda transformou o acessório em símbolo de campanha e sucesso de vendas a ponto de o fornecedor do boné não dar conta de tantos pedidos.

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René Silva e William Bonner: boné CPX de presente para o apresentador da Globo | Foto: Reprodução/Instagram

Dezoito dias depois de se expor com a sigla CPX num dos territórios mais perigosos do Brasil, Lula era declarado pelo TSE o vencedor das eleições. Presídios do Brasil afora comemoraram o resultado. A expectativa era de que os esquerdistas, reassentados no Planalto, banissem da agenda encontros pouco convencionais. Engano. Em 13 de março de 2023, Flávio Dino, então ministro da Justiça, foi filmado entrando tranquilamente no temido Complexo da Maré, no Rio de Janeiro. Sem divulgação prévia e sob frágil aparato de segurança, a incursão atiçou novamente os opositores, que voltaram a sugerir uma proximidade com o Comando Vermelho. Dino classificou como “esdrúxula” a suposição e resgatou a retórica do preconceito contra as comunidades mais pobres.

Brasília recebe a Dama do Tráfico

Na mesma época, um novo personagem surgiria para alimentar ainda mais a desconfiança sobre a qualidade dos relacionamentos mantidos por membros do governo. Nos dias 19 de março e 2 de maio, o Ministério da Justiça e Segurança Pública, comandado por Dino, recebeu uma convidada: Luciene Barbosa Farias, conhecida como Dama do Tráfico e mulher de Clemilson dos Santos Farias, o Tio Patinhas, líder do Comando Vermelho no Amazonas. Condenada por associação ao tráfico de drogas, organização criminosa e lavagem de dinheiro, a mulher visitou Brasília às custas do governo federal. Foram R$ 6 mil em passagens aéreas e hospedagem. Em novembro de 2023, o deputado federal Guilherme Boulos (Psol-SP) apareceu sorridente nas redes sociais ao lado de Luciene. Em janeiro deste ano, a Dama do Tráfico foi presa em Manaus, onde cumpre pena de dez anos em regime fechado.

Guilherme Boulos e Luciene Barbosa Farias, à direita | Foto: Reprodução redes sociais

Em caso mais recente, outro ministro de Lula, Ricardo Lewandowski, sucessor de Dino na Justiça, teve, por tabela, seu nome vinculado ao tema. Enrique de Abreu Lewandowski, filho do ministro, aparece como um dos advogados da Terra Nova Trading, empresa investigada na Operação Carbono Oculto. Conduzida pelo Ministério Público de São Paulo, Polícia Federal e Receita Federal, a ação indica que a empresa na qual Enrique trabalha teria sido usada para fraudes bilionárias envolvendo o Primeiro Comando da Capital (PCC). O advogado explicou que atua nas áreas cível e tributária, sem nenhum vínculo com processos criminais ligados à Terra Nova.

A proximidade da esquerda com personagens enrolados com a Justiça não é o único motivo de crítica. Chama a atenção o esforço de parlamentares em propor leis que indicam a contramão do combate ao crime organizado. Um exemplo recente é o projeto de lei nº 2040/2025. De autoria da deputada federal Talíria Petrone (Psol-RJ) e intitulado “Céu Desarmado”, o PL foi protocolado na Câmara dos Deputados em 30 de abril deste ano. O objetivo é proibir que a polícia opere com helicópteros e drones. No plenário, a esquerdista sustentou que a medida seria uma forma de “proteger a vida, os direitos fundamentais e a integridade das populações”. Procurada para dar mais detalhes, Talíria não respondeu à reportagem.

Talíria Petrone e Lula durante ato no Palácio do Planalto, Brasília, DF (17/7/2024) |
Foto: Ricardo Stuckert/PR

“Gatinhos contra as facções criminosas”

A proposta contraria a realidade. O uso de drones pelo crime organizado não é mais novidade. Tornou-se um enorme desafio à segurança pública. A máfia do crime recorre a esse tipo de aeronave para disputar territórios, atacar rivais e transportar drogas, celulares e até alimentos para dentro de presídios. Em alguns casos, recruta-se o equipamento para monitorar juízes e promotores, como estratégia de intimidação. Em uma entrevista ao programa Hoje Em Dia, do R7, a desembargadora do Tribunal de Justiça de São Paulo Ivana David disse que integrantes de facções se voluntariam em conflitos internacionais, como na Venezuela e na Ucrânia. O interesse é aprender a operar drones em plena guerra. De volta ao Brasil, multiplicam o conhecimento nas quadrilhas.

A resposta das forças de segurança tem sido o contra-ataque. A Polícia Militar de São Paulo dispõe de 250 drones, operados por mais de 1,2 mil policiais. Os equipamentos têm sensores térmicos e câmeras de longo alcance. Identificam suspeitos em áreas de mata e acompanham ações suspeitas a quilômetros de distância. Em eventos com grande público, monitoram em tempo real. Focalizam ocorrências que normalmente terminam em prisões em flagrante. O Rio Grande do Sul passou a adotar sistemas antidrones. Eles interceptam equipamentos irregulares e rastreiam os criminosos no controle remoto. Essas medidas mostram que, sem esse tipo de tecnologia, o desequilíbrio favoreceria apenas o crime.

Contrário ao PL de Talíria, o relator da proposta, deputado Sanderson (PL-RS), afirma que a proibição das aeronaves fragiliza as forças policiais. O parlamentar, inclusive, postou um vídeo em seu perfil no Twitter/X em que acusa o governo Lula, os partidos de esquerda e o STF de abandonarem as fronteiras brasileiras, área estratégica para o avanço do narcotráfico. “São leões com os velhinhos patriotas, mas gatinhos com as facções criminosas”.

“Mais uma aberração da esquerda”

Para o deputado federal Sargento Fahur (PSD-PR), o PL da deputada é “mais uma entre tantas aberrações propostas pela esquerda”. Diz que a iniciativa não busca proteger a sociedade, “mas, sim, facilitar a vida de criminosos”. Acrescenta que “a esquerda defende bandidos dia e noite”. Na sua análise, os projetos caminham sempre no mesmo sentido: enfraquecer a segurança e fortalecer quem vive à margem da lei. “Usam argumentos disfarçados de preocupação com os direitos humanos, quando, na verdade, contribuem diretamente para a insegurança”.

A Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro afirmou que o uso de drones e helicópteros em operações policiais não apresenta risco. “Não há estatística que associe letalidade ao uso desses equipamentos. Os drones têm sido um recurso essencial para ampliar a eficiência das operações policiais”. O governo fluminense destaca como “fundamental” a função das aeronaves, principalmente em trabalhos de inteligência. “Esses equipamentos permitem que os agentes atuem de forma mais assertiva nas rotas de acesso aos criminosos e possibilitam uma visão estratégica do terreno sem a exposição direta das equipes”.

Foi com a ajuda de um helicóptero, aliás, que policiais prenderam diversos traficantes de alta periculosidade no último dia 4, na região de Bangu. Entre eles, Bruno Loureiro, o Coronel, apontado como chefe do tráfico na comunidade de Muquiço. Ele é acusado de matar Sther Barroso, de 22 anos. Segundo apurações, ao deixar um baile funk, a jovem foi violentada sexualmente e espancada até a morte por Coronel. O ato teria sido uma vingança à recusa da moça em sair com o criminoso. A mesma operação deteve José Rodrigues Silva, o Sabão, que em março deste ano tentou derrubar um helicóptero da Polícia Civil.

Mais de 60% das forças de segurança usam drones

No Brasil, ainda não existe um dado consolidado que mostre o nível de eficiência das aeronaves no combate ao crime. O que se sabe é que, de acordo com uma pesquisa da FGV Direito Rio, 63% das forças de segurança pública usam drones como principal recurso tecnológico no combate à criminalidade. “Os drones podem ser operados em locais de difícil acesso, aumentando a eficiência em comparação a métodos tradicionais, como o uso de helicópteros”, avalia o tenente-coronel Felipe Sommer, comandante do Batalhão de Aviação da Polícia Militar de Santa Catarina. Sob a sua liderança, a força anunciou em agosto a compra de novos equipamentos com sensor térmico e alcance de 60 quilômetros.

Nos Estados Unidos, o uso de drones cresceu mais de 150% nos últimos seis anos. Hoje, cerca de 1,5 mil departamentos de polícia têm o dispositivo. Estados como Califórnia e Maryland relatam uma redução substancial no envio de viaturas terrestres e policiais a determinadas ocorrências. Os drones chegam muito mais rápido e mapeiam a situação. “Os drones ampliam a inteligência tática e melhoram a precisão das operações”, afirma William Scott, oficial da Polícia de São Francisco.

No Reino Unido, o cenário se repete. “Os drones são decisivos em salvar vidas e compensar limitações orçamentárias e operacionais”, diz o sargento Kev Taylor, piloto-chefe da área de drones Lincolnshire Police. Na Índia, o governo adotou o sistema tecnológico por considerá-lo “um multiplicador de força que economiza recursos, com inteligência em tempo real na tomada de decisões”, afirma reportagem do Times of India. No México, as forças de segurança registraram recentemente uma redução de 10% no índice de crimes gerais depois que passaram a intensificar o uso de drones. Os roubos a residências caíram 30%. Mais de 500 prisões puderam ser realizadas.

‘Robô PM’ ajuda no combate a furtos e roubos em SP
O projeto piloto da PM usa drones em apoio preventivo às equipes policiais | Foto: Reprodução/SSP

A deputada do “furto por necessidade”

Talíria, que agora tenta barrar o uso das aeronaves, é a mesma que em dezembro de 2021, ao lado de Natália Bonavides (PT-RN) e Sâmia Bomfim (Psol-SP), propôs incluir no Código Penal o conceito de “furto por necessidade” (quando a pessoa está em situação de pobreza para saciar fome ou necessidade básica). Também pleiteou o “furto insignificante”, que prevê a não prisão, mesmo se houver reincidência. Outra colega de esquerda, Erika Hilton (Psol-SP), usou as redes sociais em junho para apoiar publicamente o rapper Oruam. Filho do líder do Comando Vermelho, Marcinho VP, e com tatuagem de Elias Maluco, o assassino do jornalista Tim Lopes, o rapaz está preso sob a acusação de tentativa de homicídio e ligação com o tráfico de drogas.

Leia também: “Onde o crime organizado não entra”

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