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Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá, com Friedrich Merz, chanceler alemão; Anthony Albanese, primeiro-ministro australiano; Claudia Sheinbaum, presidente mexicana; Emmanuel Macron, presidente francês; Volodymyr Zelensky, presidente ucraniano; Luiz Inácio Lula da Silva, presidente brasileiro; Giorgia Meloni, primeira-ministra italiana; Antonio Costa, presidente do Conselho Europeu; Scott Bessent, secretário do Tesouro dos EUA; Ajay Banga, presidente do Banco Mundial; Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia; Keir Starmer, primeiro-ministro britânico; Lee Jae-myung, presidente sul-coreano; Cyril Ramaphosa, presidente da África do Sul; Narendra Modi, primeiro-ministro indiano; Shigeru Ishiba, primeiro-ministro japonês; e António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, durante a Cúpula de Líderes do G7 em Kananaskis, em Alberta, no Canadá (17/6/2025) | Foto: Reuters/Stefan Rousseau
Edição 274

A farsa da governança global

Um mundo sem restrições à concentração de poder com toda a certeza é uma porta escancarada para a tirania

Em declarações que antecederam a cúpula do G7, realizada no início desta semana em Kananaski, na província de Alberta, no Canadá, o presidente do Brasil, com sua habitual arrogância, voltou a defender a falsa panaceia do governo mundial, sob a alegação de que “o mundo não pode mais ser governado por um sistema multilateral que exclui a maioria”. Não foi a primeira e certamente não terá sido a última vez que ele insiste nessa falação. O discurso da governança global, quase sempre condimentado por algum apelo à promoção da paz e à defesa do meio ambiente e de minorias, é mesmo sedutor e pode iludir facilmente ouvidos ingênuos ou incautos, mas a verdade é que essa ideia é um autêntico cavalo de Tróia — cuidadosamente enfeitado na aparência por uma imaginária ordem mundial repleta de solidariedade e cooperação, mas que esconde propósitos de centralização autoritária e desprezo pela soberania das nações, pela diversidade dos povos e pelas liberdades individuais.

Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República, durante Sessão 7 – Segurança Energética, com os chefes de Estado e de governo dos países do G7, países do segmento de engajamento externo e dirigentes de organizações internacionais convidadas, em Kananaskis, em Alberta, no Canadá | Foto: Ricardo Stuckert/PR

Governança global, ou Nova Ordem Mundial, ou Agenda 2030, ou globalismo, ou qualquer outra denominação atraente e enganadora como essas, não passa de um projeto de engenharia social para a criação de uma estrutura supranacional de controle político, econômico e social sob o pretexto ardiloso de solucionar problemas “globais”, que se manifesta por intermédio de organismos como a ONU, a OMS, o FMI, o Banco Mundial, a Otan, a OEA etc. e diversas tribunas como G20, COP30, Fórum Econômico Mundial e outras, que propõem padrões universais, sejam econômicos, culturais, políticos, ambientais, sanitários, sejam digitais, aplicáveis a todos os países e por eles respeitados. Se implantada, ela transfere decisões dos cidadãos e de seus representantes eleitos para burocracias internacionais que não recebem nenhum voto e são acintosamente conduzidas por agendas ideológicas e interesses geopolíticos, como acontece quando a OMS propõe tratados obrigatórios, a ONU sugere um imposto mundial visando à redistribuição global de riquezas, os fanáticos do clima querem impor restrições estapafúrdias a agricultores, o blá-blá-blá identitário e toda uma agenda cultural que tenta decretar valores alheios ao Ocidente.

Por isso, é preocupante que governantes eleitos defendam um governo global e, quando isso acontece, cabe perfeitamente perguntar quem é o que, ao fim e ao cabo, governará esses governantes. A governança mundial é a mais recente utopia que, com pretextos alegadamente humanitários, como paz, ordem e igualdade, abre os portões de uma civilização combalida pelo relativismo moral para uma nova tirania, sem voto e agora sem rosto. É uma forma de centralização autoritária fantasiada de cooperação, que molesta a soberania das nações, ignora a diversidade dos povos e ameaça as liberdades individuais.

O socialismo sempre foi internacionalista

É natural que os socialistas do século 21 tenham encampado a ideia da governança global, já que desde as suas origens o socialismo sempre foi internacionalista, em boa parte porque sua visão da luta de classes é universal, sem pátria, como sugere a famosa frase do Manifesto Comunista conclamando os proletários de todos os países à união, uma vez que para os velhos socialistas o capitalismo era um sistema global e, portanto, a revolução socialista também teria que exceder fronteiras nacionais, vistas como instituições burguesas e, portanto, desprezíveis. Enxergavam o nacionalismo como uma ferramenta das elites para dividir os trabalhadores, ao impedi-los de perceber os interesses de classe comuns com os operários de outras nações.

Não foi por outra razão que surgiram, desde o século 19, organizações como a Primeira Internacional (1864), para promover a união dos operários de diversos países, a Segunda Internacional (1889), que enfatizou que as “lutas” dos trabalhadores eram universais e, ainda, a Terceira Internacional (1919), com o objetivo de espalhar o comunismo pelo planeta. Também não é por outro motivo que não se tem conhecimento de nenhum “hino internacional” liberal ou conservador.

Para esses admiradores de ditaduras, portanto, o internacionalismo sempre foi uma estratégia para apoiar movimentos revolucionários e financiar partidos e grupos de guerrilhas no mundo, em contraposição ao chamado imperialismo ocidental e, como sempre, sob a máscara de uma pretensa solidariedade entre países “oprimidos” do chamado Terceiro Mundo. Não há motivo para nenhum espanto, portanto, quando o presidente do Brasil e seus pares socialistas de outros países apoiam abertamente os “interesses do Sul Global” e não têm qualquer pudor de submeter suas nações a entidades supranacionais em temas ambientais, identitários, migratórios, de controle dos fluxos de informação e outros.

Modelo do Monumento à Terceira Internacional, em escala reduzida | Foto: Reprodução/Wikimedia Commons

A retórica alegórica

Com toda a franqueza, essa coisa de governança global é uma alegoria, um artifício para discorrer sobre temas mediante a instilação de significados diferentes dos reais. É uma falsa narrativa, como tantas outras que vêm contaminando o mundo, uma ideia que costuma ser vendida com a retórica do “bem comum da humanidade”, mas que, na prática, não passa de fachada para tentar concentrar poder e deteriorar as liberdades individuais. Um mundo sem fronteiras pode parecer até poético, mas um mundo sem restrições à concentração de poder com toda a certeza é uma porta escancarada para a tirania, ao dar vida a um monstro que nem Hobbes poderia imaginar — um Superleviatã. Que tal colocarmos alguns fatos para desnudar a alegoria retórica globalista?

A primeira crítica a essa utopia surge da própria natureza do homem: tradições, cultura e demais instituições locais são ordens espontâneas que não podem ser subordinadas a um comando centralizado que, por definição, desconhece suas raízes e fontes seculares. Um governo mundial estaria condenado a ignorar as especificidades culturais, idiomáticas e morais de cada país, pondo em seu lugar princípios genéricos e abstratos oriundos de uma engenharia social imposta por elites portadoras de uma ideologia que as fazem se considerarem moralmente superiores às pessoas comuns.

Governança global é uma alegoria, um artifício para discorrer sobre temas mediante a instilação de significados diferentes dos reais | Foto: Shutterstock

O segundo fato é que, quanto mais remoto é o poder, mais difícil é controlá-lo. Ou seja, um governo mundial se situaria inevitavelmente bem distante dos cidadãos, seria incapaz de ter o conhecimento de seus desejos, aspirações e necessidades, e seria refratário a qualquer pressão democrática, dado que todas as suas decisões partiriam de tecnoburocratas internacionais regiamente pagos e livres do teste das urnas.

O fato número três é que a governança mundial imporia inevitavelmente uma uniformização compulsória, à revelia dos cidadãos mundiais, de políticas diversas, sejam fiscais, tributárias, ambientais, identitárias, sejam sanitárias, que passariam ao largo das realidades econômicas, políticas e culturais de cada país. Um exemplo claríssimo dessa uniformização obrigatória é o da pandemia de covid-19, com a OMS e outras entidades globais massacrando as liberdades e impondo procedimentos autoritários mascarados de “emergência sanitária”. Você duvida que, em um governo global, aquele autoritarismo exibido em 2020 e 2021 seria a regra?

Outra crítica irrefutável é que a centralização política costuma provocar centralização econômica, com todos os efeitos mortíferos para o progresso que isso implica, principalmente de políticas econômicas impostas de cima para baixo. Não é por acaso que a ideia de governo mundial é apoiada por bilionários globais, ONGs internacionalistas e grandes empresas transnacionais, mas jamais por pequenos produtores e trabalhadores locais.

Vade retro!

Em tempos em que a liberdade está ameaçada por censuras digitais, patrulhamento ideológico, restrições à liberdade de expressão e tentativas de reengenharia social, os últimos baluartes da autonomia dos cidadãos continuam sendo a soberania das nações, a democracia com descentralização e limitação de poderes e a liberdade dos indivíduos. A proposta de um governo mundial claramente sinaliza o oposto a esses atributos, pois o que propõe, em nome da ordem e da solidariedade, é um autoritarismo global sem precedentes. Sendo assim, vai contra conquistas que a civilização ocidental conseguiu solidificar a muitos custos ao longo de séculos. Como pode alguém acreditar na eficácia de decisões tomadas por burocratas inalcançáveis, que vivem em redomas sem qualquer responsabilidade perante os cidadãos?

Em tempos em que a liberdade está ameaçada por censuras digitais, patrulhamento ideológico, restrições à liberdade de expressão e tentativas de reengenharia social, o último baluarte da autonomia dos cidadãos continua sendo a soberania das nações | Foto: Shutterstock

É revelador que o atual governo do nosso país, que apoia sem cerimônia ditaduras como Cuba, Venezuela e mantém proximidade com a Rússia, a China e o Irã, defenda uma estrutura de poder supranacional, tendo em vista que são exatamente os regimes autoritários os que mais se beneficiariam de um sistema em que as liberdades individuais pudessem ser relativizadas em nome de uma suposta “governabilidade global”.

É grave quando um governante de qualquer país usa essa retórica para justificar controle ideológico e padronização de valores. Qualquer pessoa bem informada sabe que a ideia de governo mundial vem acompanhada de propostas de censura global, de combate à “desinformação” e a “discursos de ódio” e de imposição de agendas identitárias, sempre em nome de um impalpável “bem comum” de definição impossível. Se o presidente de um país tem verdadeira fixação pela regulação da internet e pela criação de mecanismos para controlar as redes sociais, não é difícil imaginar o que faria com endosso e aval supranacionais.

Líderes democráticos verdadeiros têm o dever de defender a liberdade e a autonomia de seu país e de seus cidadãos, e por isso é lamentável quando algum deles mostra disposição de abrir mão disso em nome de uma utopia globalista. Mais dramático é sabermos que seus propósitos são ocultos e alinhados mais com os interesses de uma elite transnacional do que com os anseios reais do povo que o elegeu. E é dever de todos os cidadãos conscientes não deixar que o seu destino seja entregue a ninguém e a nenhum órgão ou governo, de qualquer canto do mundo, além deles próprios.


Ubiratan Jorge Iorio é economista, professor e escritor.
Instagram: @ubiratanjorgeiorio
Rede X: @biraiorio

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5 comentários
  1. DONIZETE LOURENCO
    DONIZETE LOURENCO

    Atualmente os organismos internacionais, ONU, OMS, OEA, etc não enganam mais ninguém razoavelmente informado.
    Desde 2020 por conta da pandemia do Corona Vírus defendo que a autuação da OMS não foi de gerenciamento de protocolos de enfrentamento, mas do maior estudo para controle social já aplicado no mundo.

  2. Gilson Herz
    Gilson Herz

    Parabéns pelo artigo.
    Quando ao nove dedo, o inferno já tem lugar cativo pra ele. Que vá o quanto antes.

  3. Robson Oliveira Aires
    Robson Oliveira Aires

    Excelente artigo. Parabéns. Deveria ser lido e propagado em todos os lugares para que ninguém seja enganado com mentiras difundidas em todos os meios de comunicação.

  4. Olnei Pinto
    Olnei Pinto

    O nosso Larápio desconhece o que realmente acontece com esta agenda global 2030 , mas sabe que ele pode se dar bem.

  5. Márcia Aguiar Arend
    Márcia Aguiar Arend

    Exuberantemente precioso este artigo. Que Deus nos livre das perversidades dos ímpios defensores do governo mundial.

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