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Política

Um aviltante coaxar

O lábio inferior empresta ao rosto do ministro uma fisionomia inequivocamente batráquia

gilmar mendes
O decano do STF, Gilmar Mendes, durante o evento Brazil Conference, nos EUA - 12/5/2025 | Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

“A boca fala do que está cheio o coração” (Lucas 6,45)

Houve, na entrevista de Gilmar Mendes a Renata Lo Prete, um momento que merece ser examinado com a atenção que se dedica aos documentos históricos — não, obviamente, por revelar alguma novidade, mas pela candura com que confirma o que já se sabia. Questionado pela jornalista sobre se o Inquérito das Fake News, depois de sete anos de tramitação, aberto de ofício em violação flagrante ao princípio acusatório, não teria se convertido em instrumento de poder pessoal, o decano do Supremo respondeu com a placidez de quem nunca foi seriamente contrariado: “Eu tenho a impressão de que o inquérito continua necessário e ele vai acabar quando terminar”. A frase não é uma resposta jurídica. É a tradução, para o português institucional do século XXI, de uma proposição muito mais antiga: L’état, c’est moi.

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As horas seguintes do sujeito foram de mais entrevistas — uma ao Metrópoles, outra ao programa JR Entrevista, da TV Record. Sempre instado a explicar por que acionara o inquérito contra Romeu Zema — cujo delito consistiu em satirizar, por meio de bonecos animados, a promiscuidade entre dois colegas de toga —, Mendes argumentou que a sátira tem limites e que a honra de homens públicos merece proteção, e recorreu ao seguinte exemplo: “Imagine que comecemos a fazer bonecos do Zema como homossexual. Será que não é ofensivo?”

A pergunta, formulada com a entonação de quem acredita estar construindo uma tese, é na verdade a sua própria refutação — e algo consideravelmente pior. Num único período, o ministro que processa um político por sátira recorre, espontaneamente, à insinuação de homossexualidade como paradigma de ofensa intolerável, revelando, sem perceber, a arquitetura moral de sua própria concepção de desonra.

Gilmar Mendes também caçoou do sotaque mineiro de Zema — segundo ele algo difícil de entender, “um dialeto próximo do português”, “uma língua lá do Timor-Leste, um tétum ou coisa assim”. Ao observador atento era fácil notar o ódio por detrás da carranca lustrosa do burocrata de toga. E era-lhe fácil por conta de um tique que já se tornou marca registrada do grotesco personagem: o lábio inferior oscila, como que movido por uma insuflação do saco vocal, num frêmito convulsivo e repetido que, somado à expressão geral de condescendência satisfeita, empresta ao rosto do ministro uma fisionomia inequivocamente batráquia — a de um Bufo togadus que, ao engolir um inseto particularmente volumoso, experimenta ao mesmo tempo o prazer da deglutição e a consciência da própria magnificência.

E aqui a psicanálise, em geral superestimada como instrumento de análise política, presta um serviço legítimo. Freud chamava de Fehlleistung — o ato falho, o lapso revelador — aquele momento em que o inconsciente irrompe através da fachada da intenção consciente e diz, em voz alta, o que o sujeito julgava ter guardado. Gilmar Mendes não pretendia passar a impressão de estar insultando Zema nem, muito menos, confessar o seu próprio código moral. O que pretendia era defender a dignidade das instituições (que, se fossem mesmo dignas, não aceitariam esse Groucho Marx como sócio). Mas o exemplo escolhido — entre todos os exemplos possíveis, numa língua que dispõe de léxico vastíssimo para nomear ofensas — foi precisamente aquele que equipara a homossexualidade à injúria. O inconsciente não conhece a negação: ele simplesmente fala. Ou, no caso, infla o saco vocal.

Bufo togadus parece acreditar genuinamente no que diz. Outrora achei tratar-se apenas de um cínico, mas comportamento é algo mais perturbador que o cinismo: é a consciência absolutamente tranquila de quem tanto confunde o interesse das instituições com o seu próprio, que a distinção lhe parece hoje não apenas desnecessária, como incompreensível. O tribunal “tem sido vilipendiado” — e, portanto, os vilipendiadores devem ser processados. O inquérito “continua necessário” — necessário para blindá-lo, razão pela qual continuará. Zema “sapateia” com uma língua “próxima do português” — e, portanto, deve ser investigado.

Em cada caso, a conclusão precede a premissa; a vontade do ministro é o silogismo inteiro. O lábio treme, o papo avança, e a frase sai com aquela untuosidade particular de quem toma os próprios vícios por razão de Estado. A cada saltito de autoblindagem, a cada aviltante coaxar de ódio pelo público, o país vai sendo mais destruído e afundada no lodo em que, afinal, toda criatura anfíbia se sente bem.

Leia também: “O choro sem lágrimas”, artigo de Augusto Nunes publicado na Edição 314 da Revista Oeste

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9 comentários
  1. Ivan Sérgio de Paula lima
    Ivan Sérgio de Paula lima

    Texto muito bom.
    Faço apenas uma resalva: os batráquios não merecem a comparação!

  2. Jorge Augusto Santos
    Jorge Augusto Santos

    Muito bom o artigo , o batráquio tbm conhecido sapo boi tem total similaridade com o personagem ,. Kkkk

  3. Márcia Luzzi Valmórbida
    Márcia Luzzi Valmórbida

    Maravilhosa descrição deste batráquio, que alguma serpente do pântano que ele frequenta o engula e depois o vomite por ser indigesto!

  4. Raul Bley Maia Filho
    Raul Bley Maia Filho

    Como diz o Augusto Nunes sobre a performance do personagem quando está bajulando alguém no plenário do STF, choro compulsivo sem lágrimas e que provoca o tremor dos lábios e muita sede! Digno de um grande ator, de comédia!

  5. Marcos Antônio de Carvalho
    Marcos Antônio de Carvalho

    Acho interessante: alguém, oriundo dos grotões do Mato Grosso (em que pese o orgulho que tenho daquelas terras milagrosas e de sua gente ordeira e que tem carregado nas costas a economia brasileira) querendo apequenar o falar e os costumes mineiros, só consegue demontrar sua estatura ínfima e enlameada!

  6. Mariza
    Mariza

    Descreveu com sensibilidade e exatidão o comportamento desse anfibio supremo kkkk Ainda bem que aquele Estado está para desmoronar em 2027, no máximo!

  7. Celso Eveling Caetano
    Celso Eveling Caetano

    Parabens pelo texto, exprime a essência de um homem sem escrupulos travestido de juiz que nunca foi.

  8. Plínio de Assis Tavares Junior
    Plínio de Assis Tavares Junior

    Gostei do comentarista, aproxima-se do meu escritor favorito,de quem eu lia tudo n’O Globo ( até futebol ), da Cassa dra Rios e seus artigos cheios de sátiras inteligentes ,suas metáforas e neo vocabulário. Além disso, nos proporciona a análise psicológica do novo rico de MT.

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