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Venezuela: como Delcy Rodríguez se equilibra no poder

Presidente que substituiu ditador Maduro tem realizado demissões estratégicas de ministros do chavismo

Delcy Rodríguez Venezuela
Delcy Rodríguez se tornou presidente interina da Venezuela em janeiro | Foto: Reprodução/Wikimedia Commons

A presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, 56 anos, se tornou uma verdadeira equilibrista no poder desde que assumiu o cargo em janeiro de 2026, depois da captura, pelos Estados Unidos, do ditador Nicolás Maduro. Até então vice-presidente, eleita junto com Maduro nas contestadas eleições de 2024, ela passou a governar com um olhar para o público interno e outro para os EUA. O que ela menos deseja é contrariar o presidente Donald Trump.

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Nesta tentativa de se equilibrar no governo, tem realizado substituições em vários ministérios e no alto comando militar, ao mudar mais de um terço da estrutura do Executivo venezuelano durante os primeiros meses. As duas maiores alterações ocorreram no Ministério da Defesa e no Ministério das Indústrias e Produção Nacional.

Em março, o então ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, foi demitido de seu cargo, que ocupava desde 2014 e que o tornou um dos pilares militares do chavismo. No dia 13 de abril, porém, Padrino López se tornou ministro do Poder Popular para a Agricultura Produtiva e Terras, substituindo Julio León Heredia.

O significado disso fica evidente. Delcy quer mostrar aos EUA que está alterando a configuração da gestão venezuelana, mas, ao mesmo tempo, quer mostrar à população que não se rende ao governo norte-americano. No entanto, trocar o responsável pelo Ministério da Defesa, um dos centros de poder do regime, e colocá-lo no Ministério da Agricultura, que não tem o mesmo peso estratégico, é realizar um “rebaixamento elegante”. Ela busca atender às expectativas dos EUA e, ao mesmo tempo, se apega às aparências para preservar a ideia de continuidade interna no chavismo.

Não importa nem o fato de o substituto de Padrino também ser um chavista de carteirinha, no caso o general Gustavo González López. O importante é que, ao retirar Padrino e colocar González López na Defesa, Delcy mexeu no núcleo do poder militar do chavismo. Por mais que González López seja ligado à ditadura de Maduro, ele vinha atuando como quadro da inteligência e contrainteligência, não na cadeia tradicional de comando militar.

Isso o tornou particularmente interessante no atual momento. González López é ligado historicamente aos serviços de segurança do regime, especialmente o Servicio Bolivariano de Inteligencia Nacional (SEBIN). O governo dos EUA chegou até a sancioná-lo quando ele dirigia o SEBIN em 2015. No entanto, o fato dele ter acompanhado de perto a movimentação de militares opositores pode agora contribuir para a estabilidade do regime de Delcy. E para a manutenção da interlocução com Washington. Profundo conhecedor de toda a cadeia militar, o general acumulou muito poder ao longo dos anos. Neste momento, é alguém capaz de garantir lealdade ao novo governo.

Outra demissão feita por Delcy na Venezuela

A demissão do ministro das Indústrias e Produção Nacional, Alex Saab, também foi um exemplo de como muitos interesses chavistas têm sido deixados de lado. Saab foi demitido logo em janeiro. Empresário colombiano-venezuelano, ele é considerado um operador financeiro do chavismo e aliado crucial de Maduro. Foi alvo de diversas acusações e investigações internacionais ao longo dos últimos anos, como lavagem de dinheiro e esquema de subornos (acusações nos EUA), além de fraudes comerciais e enriquecimento ilícito (acusações na Colômbia).

O nome de Saab apareceu em vazamentos internacionais conduzidos pelo International Consortium of Investigative Journalists (ICIJ), o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos. Entre eles estão os Panama Papers, revelados em 2016; os Pandora Papers, divulgados em 2021; e os FinCEN Files, publicados em 2020.

Leia também: “Direita retoma espaço na América do Sul”, reportagem de Eugenio Goussinsky publicada na Edição 293 da Revista Oeste

Os Panama Papers se referem ao vazamento de milhões de documentos do escritório panamenho Mossack Fonseca. Foi exposto, no escândalo, o uso de empresas offshore por políticos, empresários e figuras públicas em várias partes do mundo. Já os Pandora Papers ampliaram essa investigação ao revelar milhões de novos registros de companhias offshore administradas por diferentes prestadores de serviços financeiros globais.

Os FinCEN Files tiveram por base relatórios confidenciais enviados por bancos à Financial Crimes Enforcement Network (FinCEN), a agência do Departamento do Tesouro dos EUA responsável por monitorar e combater crimes financeiros, como lavagem de dinheiro e financiamento do terrorismo. Esses documentos mostraram como instituições financeiras reportaram transações consideradas suspeitas que circularam pelo sistema bancário internacional.

Segundo as investigações conduzidas pelo ICIJ e por veículos parceiros, o nome de Saab aparece associado a estruturas empresariais e movimentações analisadas nesses vazamentos, em investigações sobre redes financeiras ligadas ao governo venezuelano.

Para o lugar de Saab, foi nomeado Luis Antonio Villegas, militar e funcionário de carreira do aparato estatal venezuelano, que já ocupava o Ministério do Comércio Nacional. Diferentemente de Saab, empresário com forte atuação em redes comerciais internacionais, Villegas tem trajetória principalmente burocrática dentro do governo chavista. Mais do que ministro, Saab era visto por analistas como um operador internacional do regime, responsável por articular redes comerciais externas em meio às sanções impostas pelos EUA.

Delcy, com essas mudanças, busca se manter no poder. Seu mandato era temporário, de acordo com a Constituição, que impõe 90 dias como prazo máximo para esse tipo de situação. O prazo se esgotou, mas o governo não convocou eleições, com o argumento de que o país vive sob uma “ausência forçada” de Maduro, já que ele foi retirado do país e permanece preso nos EUA.

Um argumento conveniente para evitar eleições imediatas e transferir parte da responsabilidade política para o governo de Donald Trump. Algo que, neste momento, parece conveniente para Washington e para a própria Delcy.

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