Logo às primeiras páginas do romance Os Demônios, Dostoiévski vai dando indícios de que abomina tanto o socialismo quanto o niilismo, então tidos por revolucionários e positivos.
Em vez disso, adota um tom profético e repleto de condenações. Defende a monarquia e a ordem vigente. Para escrever esse romance, publicado em capítulos na revista Ruskii Vestnik (Mensageiro da Paz), entre os anos 1870 e 1872, ele se inspira num curioso trecho dos Evangelhos (Lucas 8, 26-39). É o episódio dos porcos suicidas, narrado por um médico e pintor do Século I, de nome Lucas, nascido em Antioquia e falecido em Tebas aos 84 anos.
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Os acontecimentos reais ou lendários contados por ele são repletos de cenas fáceis de ser reproduzidas em imagens, diferentemente do tom objetivo e breve de Marcos e de Mateus, e do tom filosófico e teológico de João. Foi Lucas quem escreveu um dos quatro Evangelhos canônicos, isto é, aceitos pela Igreja.
A medicina dos tempos a.C. também atribuía certas doenças a forças sobrenaturais. Depois de expulsos por Jesus do corpo de um possesso, os demônios pedem autorização para invadir os corpos de porcos que pastavam num monte próximo. O Mestre os autoriza e os demônios levam os animais a se jogar num despenhadeiro, caindo num lago onde morrem afogados.
Está pronta a metáfora do romance de Dostoiévski: o povo russo corre o perigo de ser tomado por revolucionários e ateus que o levarão a precipitar-se num abismo sem Deus, pois, levado a negá-lo por não mais que 10% da população, o povo se tornará um rebanho controlado por demônios.
Aliás, na Alemanha e na Itália dar-se-ão fenômenos autoritários semelhantes com Mussolini e Hitler, mas com sensíveis diferenças ideológicas, embora o objetivo fosse o mesmo e fossem também semelhantes os métodos das minorias dirigentes para conduzir como rebanho o povo no rumo da ruína previsível.
É impressionante a premonição de Dostoiévski, um dos romancistas solares da segunda metade do Século XIX. No século seguinte veio a Revolução Russa de 1917 e a seguir o stalinismo, que impôs a censura, a patrulha e a denúncia de quem pensasse por conta própria. Sobreveio também a vergonha de ter opinião diferente da dos totalitários, una e coesa à força de todos os meios disponíveis, sem dispensar a proibição, a tortura, os campos de concentração e a morte.
Não foi nenhum capitalista que denunciou o horror imediatamente após a morte de Stalin, que liderou a implantação do novo modelo. Foi Kruschóv, seu sucessor, num célebre congresso do Partido Comunista.
Outros escritores também se ocuparam do novo estado de coisas, como foi o caso de George Orwell, autor britânico nascido na Índia, em A Revolução dos Bichos. E de modo documental o russo Alexander Soljenítsin em Arquipélago Gulag, mas muito mais tarde.
Ninguém perde seu tempo em reler Dostoiévski. E o mercado livreiro vem oferecendo mais traduções diretas do russo. As mais antigas vinham do francês e do espanhol.
(*) Deonísio da Silva é escritor e professor. Seus livros estão em www.almedina.com.br, impressos e digitais, na Amazon, ou em qualquer livraria de sua preferência.






































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