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Uma Batalha Após a Outra: filme passa pano para os radicais de esquerda

Uma obra fascinante, e ao mesmo tempo frustrante, criada para agradar à Hollywood liberal. Com certeza vai levar muitos prêmios

Trecho do filme Uma Batalha Após a Outra | Foto: Reprodução/Redes sociais
Trecho do filme Uma Batalha Após a Outra | Foto: Reprodução/Redes sociais

Se você é do tipo que aposta, pode muito bem colocar todas as suas fichas em Uma Batalha Após a Outra para faturar alto o próximo Oscar. Isso não é necessariamente um endosso, dado o histórico da Academia de premiar um cinema piegas, complacente, politicamente conveniente e constrangedor.

Para ser justo, Uma Batalha Após a Outra é um filme muito melhor que Crash – No Limite ou Green Book – O Guia. A obra mais recente de Paul Thomas Anderson é uma adaptação livre — bem livre — de Vineland, de Thomas Pynchon, com o cenário da era Ronald Reagan atualizado para o presente. E Anderson é um dos diretores mais talentosos das últimas três décadas: Sangue Negro é um dos dois ou três melhores filmes dos anos 2000. Ele também dirigiu um punhado de outros clássicos modernos. Até mesmo seus piores filmes têm bastante coisa que se pode recomendar.

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Mas Uma Batalha Após a Outra, apesar de alguns momentos marcantes, não é um dos seus melhores. A razão é que ele serve perfeitamente ao tipo de liberalismo complacente e autocongratulatório que Hollywood adora premiar. Digo isso como alguém que é, pelo menos em parte, simpático a um dos grandes cavalos-de-batalha políticos do filme: a imigração.

No cerne da narrativa emaranhada e difusa do filme está um grupo militante de esquerda conhecido como os “French 75”. Quando os conhecemos pela primeira vez, eles estão libertando um grupo de imigrantes de um centro de detenção americano. Não é uma ação pacífica e democrática: o plano deles envolve armas, explosivos e cordas para amarrar guardas. Anderson é perspicaz o bastante para mostrar aos espectadores que os revolucionários estão nisso por mais do que apenas a causa: eles se excitam com a violência, literalmente, e com a líder do grupo, Perfidia Beverly Hills (Teyana Taylor), que usa a ação tanto para conquistar o afeto de seu namorado, um especialista em explosivos que se torna conhecido como Bob Ferguson (Leonardo DiCaprio), quanto para forçar o comandante do centro, coronel Steven Lockjaw (Sean Penn), a uma submissão sexual degradante. Lockjaw sente prazer com isso e a procura para terem um caso amoroso ilícito que mudará a vida de ambos.

No filme inspirado em Pynchon, o grupo militante “French 75” mistura ideologia e prazer na violência, revelando contradições perversas | Foto: Reprodução/Redes sociais

No primeiro ato do filme, Hills tem uma filha pequena, e as ações violentas dos French 75 se intensificam. Eles bombardeiam os escritórios de congressistas antiaborto, entre outros locais. Eles também fazem um assalto a banco que dá errado e acaba em tragédia quando Hills atira e mata um segurança. O grupo se dispersa, Hills é capturada e, em troca de evitar a prisão, ela entrega o paradeiro de seus camaradas de esquerda.

A história é retomada uma década e meia depois, com o ex-militante atirador de bombas interpretado por DiCaprio vivendo escondido com Willa, a filha de Hills, agora adolescente. Ele se tornou uma piada de radical liberal — um maconheiro avoado que não consegue lembrar quais pronomes usar com os amigos da filha. Mas, logo, Lockjaw encontra o rastro deles, e o filme se transforma em uma longa perseguição. Bob e Willa estão em fuga para fora de uma cidade californiana que se tornou uma espécie de “Underground Railroad” (rede clandestina de rotas e esconderijos para imigrantes nos Estados Unidos, do século 19). Ao mesmo tempo, a cidade está sob ataque de Lockjaw e das forças que ele controla.

A intenção de Anderson é evidente: ele quer retratar o establishment liberal envelhecido de hoje como incompetente e ridículo, corroído pelas drogas, com uma obsessão cansativa pelo patrulhamento inútil da linguagem — ao mesmo tempo que descreve os horrores reais de um tipo de Estado fascista e criptorracista. Os subordinados militares de Lockjaw são mostrados como aterrorizantes e dotados de sangue-frio em seus métodos. O próprio Lockjaw faz parte — juro que não estou inventando — de um grupo supremacista branco secreto, semelhante à Ku Klux Klan, com temática natalina, no qual os membros se saúdam com “Salve, Papai Noel”.

Às vezes, o filme é realmente muito engraçado. E há múltiplas cenas de ação tensas e complexas que impulsionam o filme. Com pouco mais de duas horas e quarenta minutos, é bem extenso, mas nunca fica chato.

O problema é que Anderson não consegue se permitir confrontar o lado sombrio e a violência de seus heróis radicais de esquerda. Os primeiros 40 minutos do filme mostram os French 75 bombardeando edifícios, assaltando bancos e deixando um rastro de corpos. Mas o filme prefere criticá-los como absurdos e ineficazes, em vez de reconhecê-los como os radicais violentos que de fato são. (Mais adiante, à medida que o filme avança para os dias atuais, ele reduz a presença de violência ativista, retratando atos incendiários como operações de falsa bandeira executadas pelas forças de Lockjaw.) A ideia mais provocante do filme, de que Hills é egoísta e atraída pela perversão excitante do radicalismo, não é explorada.

Anderson retrata os French 75 mais como ineficazes do que como radicais violentos, suavizando o lado sombrio da militância | Foto: Reprodução/Redes sociais

Em essência, o filme retrata seus radicais e revolucionários como personagens cativantes e até profundamente justos diante de um governo racista e fascista. E, embora zombe da esquerda envelhecida de hoje, seu epílogo melodramático se empolga com a ideia de que a próxima geração possa vir a abraçar a causa deles.

Como eu disse, tenho certa simpatia pelas ideias do filme, especialmente por suas preocupações com as forças militarizadas de repressão à imigração. E há uma espécie de ousadia em retratar uma aliança de esquerda contra o fascismo incipiente como sendo populada por palermas ridículos. Mas Uma Batalha Após a Outra passa o pano para seus esquerdistas violentos com muita facilidade. Quer os formadores de opinião de Hollywood o recompensem por sua brandura e autobajulação ou não, está claro que todos os envolvidos parecem complacentes demais com a causa.

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